Vivi por mais idades do que anos. Ninguém diz que eu tenho 19, sempre chutam pra menos, bem menos. E, quando pra mais, pra bem mais. A verdade é que tem dias que eu acordo com 30, dias que acordo com 15, e dias que parece que acabei de nascer. Da minha infância eu pouco me recordo, mas os casos que marcaram, por acaso, eu me lembro melhor do que o que almocei hoje.
Era uma manhã quente de feira alguma e eu vestia o uniforme camiseta branca com a sigla CSU e um short que, em mim, servia como bermuda. Lembro que, de tão miúda, até a 3ª série do 1º grau eu fui chamada de "cotoco" pelos meus coleguinhas de turma. Achou graça, não é? Pois eu não levava como ofensa. Talvez hoje eu sinta, sim, no subconsciente, os efeitos do tal bulling; não me contento em ser baixinha. Mas sei tirar proveito disso, principalmente quando vou à Zara e compro uma daquelas blusas de 29,90, que em mim servem como vestido (não preciso nem dizer quanto custa um vestido na Zara, preciso?). Enfim, voltando ao ginásio esportivo, a aula que eu menos gostava era a de educação física, exceto quando o objetivo da aula era correr. Ah, como eu gostava de correr! A vontade que eu tinha era de disparar, feito um cotoco de foguete, e não parar mais. Sair atropelando tudo, mesmo, sem dó, cambaleando, tropeçando, passando por cima e deixando pra trás qualquer coisa que viesse a me incomodar.
Certa vez fui escolhida para uma competição de corrida no Colégio Santo Inácio. A professora Neuza parecia bem confiante nas minhas perninhas. Atenção: fogo! E passa e passa e passa e fica e fica e fica. E fica em penúltimo. Acho que preferia ter ficado em último, fiquei arrasada. Sempre que algo do tipo acontecia, vinha um espertalhão me fazendo sentir ainda pior com o mais non-sense dos consolos: não fique assim, o importante mesmo é participar. Ah, que raiva que eu tinha daquelas pessoas. Se o importante é participar, qualquer outra menina de short (short mesmo) azul, por mais tartaruga que fosse, poderia estar competindo no meu lugar. Se o importante é participar, eu pensava, por que existem 1º, 2º e 3º lugares? Se fosse tudo questão de participar, todos receberiam uma medalinha de ouro. Eu queria tanto voltar pra casa com uma medalhinha de ouro. Aliás, nem que fosse de prata, sempre gostei mais de prateado do que dourado mesmo. Mas tudo bem, fiquei sem.
Para a minha insatisfação, aquela aula de educação física era só de brincadeiras que envolviam corrida. Digo insatisfação, pois depois do penúltimo lugar, a vontade que eu tinha nas aulas de educação física era de correr sim, mas pra casa.
Foram formadas duas filas, e eu, no fundo, no fundo, louca pra ser a primeira a sair voada. Mas pensei: pra que? Pra que sair em primeiro se chego em penúltimo? Então parei e refleti: os últimos serão os primeiros. Já ouvi isso dos meus pais. E pode ser que seja verdade. Eles mesmo me provaram que nada é impossível. Que um dia o desemprego pode bater à porta e no outro a profissão ascender. Que um dia o almoço pode ser pão e no outro caviar. Que tem gente que nasce em casa de barro e acaba sendo dono de uma mega construção. E, olhando a fila de longe, não fui embora, não sentei, nem fui lá pra frente. Me posicionei atrás do último, na fila da direita, até que escutei a voz da tia Neuza: Aline, vem cá, você que tá se escondendo aí, você vai começar.
Ah, humildade. Se eu soubesse disso antes.