10/01/2009
Desconsidere você também
Ontem eu tive tudo para não dar as caras, tanto que hesitei. Mas se continuasse olhando para trás eu nunca saberia, então fui. E fiz bem, agora eu sei. Fermentados e destilados, tonteei. Vi o ímpar em par, quis não acreditar. Ela me interrompeu e me fez prometer que nunca mais aconteceria nada entre mim e ele (e quanto ao outro, questão de saber dosar). Eu prometi. Chorei, chorei, sorri. Beijei, só de nostalgia, como prometido. Saí. Atravessei. Fui até o décimo andar. Tanto afago que nem sei se mereço. Só sei que fui feliz pelos 2 segundos em que olhei nos olhos de outrem e me vi, me vi por inteiro. Na volta, não deixei pingar. Hoje eu acordei depois de duas míseras horas mal dormidas e me olhei no espelho; olhos pequenos, sem um sequer resquício de maquiagem. Foi então quando eu notei que as marcas não estão mais no meu braço, nem o roxo, nem o vermelho. Pode ser que seja assim; enquanto existe inchaço elas passam por todas as cores, até que desmancham. Pode ser que seja assim. Foi junto com a vermelhidão, minha expectação. As marcas ficam por um tempo, mesmo que vasto, só por um tempo. Assim espero. Ele é intrínseco e passa quase despercebido, o meu amor é; e é maior do que isso. O meu amor é maior do que eu, é maior do que você. A minha vontade de ver o bom transformar-se em bem ainda existe, é uma pena que eu esteja tão desgastada emocional e fisicamente. Hoje eu sei que quando eu disse "você não demonstra ser o que é" eu não estava errada. Estou ofegante só de pensar em reconstruir em outro terreno, ainda desnivelado, tudo aquilo que desaba sem que, para isso, eu faça o mínimo esforço, sem que eu faça absolutamente nada.
04/01/2009
Não é você, sou eu
Cansada do superficial, do experimental, do improviso. Perplexa com o que a morte do ingênuo causou-me/os, ao acaso, sigo. Em meio inteiro ao caos, cansada do hostil, do infanto-juvenil, do futíl, de ter e não ser, de ver e não crer, eu sigo em frente. Cansada do cansaço, dividida em um pedaço, não sei se é covardia ou certeza do fracasso, sou mais uma no meio de tanta gente descrente. Não quero alimentar o desapego alheio, não quero mais andar feito cego em tiroteio, quero ter a certeza da imensidão do mar, para poder ir bem fundo. Perdoe minha amiga insegurança, ela não sabe o que faz. Entenda que não é você, sou eu que não me quero mais.
Dos três tipos de pessoa
Existem três tipos de pessoa: a pessoa que não sabe o que dizer e por isso não diz; a pessoa que não sabe o que dizer e por isso diz o que não sabe e a pessoa que sabe o que dizer e por isso não diz. Quer dizer, existe a pessoa feita de som, que só diz o que convém; existe a que é feita de ruído, condenada, subjugada e desconjugada por seus atos-falhos e finalmente a que é feita de silêncio, silêncio que queima de tão frio, que grita de tão mudo e que faz observar e absorver e observar e absorver até que se torne permeável. Tal permeabilidade, porém, nada tem de seletiva e deixa passar o que os tímpanos não queriam sentir e o que os neurônios não queriam guardar. Retendo tanto é impossível impedir que de quando em vez exploda, ou pior, emploda, a forçando a vomitar palavras (soltas ou unidas pela métrica), que navegam as cordas vocais a tantos kilômetros barra hora que atingem o que houver pela frente.
Lacônico (em pessimismo)
Mas quando eu for detida entenderei que nada na vida subsiste por infinito, que breve é eufemismo, que desejo é conflito e que a esperança só existe enquanto se avista o abismo.
Retr-ato
Talvez pelo medo de nunca mais ver a cor, talvez pelo medo de sentir o ardor. Talvez pelo medo do medo, talvez pela dor. Talvez pela força que o fraco rejeitou, orgulho ou covardia, não sei, desamor. Pode ser que seja tudo culpa do valor.
E que valor será esse quando abrirmos a cortina para o último ato?
Em que canto ei de viver o pacato?
Pode ser que seja tudo culpa do valor.
Talvez pelo medo do medo, talvez pela dor de ser o que não sou.
De imediato, retrato - sem vida nem ferida -, me imortalizou.
E que valor será esse quando abrirmos a cortina para o último ato?
Em que canto ei de viver o pacato?
Pode ser que seja tudo culpa do valor.
Talvez pelo medo do medo, talvez pela dor de ser o que não sou.
De imediato, retrato - sem vida nem ferida -, me imortalizou.
Não quero ter que repetir
Para que não remanescente, me contenta o pretérito perfeito.
De imperfeito, me basta o presente.
Eu sempre tive certeza, mas de tanta certeza caí na fraqueza da indiferença; na franqueza da ofensa. Então, pode ser. Você que sabe. É que da noite não sobra nada, além da maquiagem borrada. É que do dia não sobra nada, além da cara amassada. Então, tanto faz. Eu olhei pela janela, cadê ela? Só vi a fachada amarela e o cinza do tempo.
Ah, persistência. Não se calcula mais letras nem se desenha mais números como antigamente; hoje é bem diferente (e bem pior). Tudo que a gente quer é ser o melhor. Não é? Mas o que vale não é a conquista, é a jornada. Quando se chega ao topo - eu previamente arrisco - se pergunta: "e agora? Descer?". Não falta nada. É por isso que eu só quero enquanto não posso ter.
E daí surge a fumaça da minha pálida frieza.
E assim revelo o gélido segredo da minha delicadeza e incalculável leveza.
A única certeza que eu tenho é a de que não tenho certeza.
Não quero ter que repetir.
De imperfeito, me basta o presente.
Eu sempre tive certeza, mas de tanta certeza caí na fraqueza da indiferença; na franqueza da ofensa. Então, pode ser. Você que sabe. É que da noite não sobra nada, além da maquiagem borrada. É que do dia não sobra nada, além da cara amassada. Então, tanto faz. Eu olhei pela janela, cadê ela? Só vi a fachada amarela e o cinza do tempo.
Ah, persistência. Não se calcula mais letras nem se desenha mais números como antigamente; hoje é bem diferente (e bem pior). Tudo que a gente quer é ser o melhor. Não é? Mas o que vale não é a conquista, é a jornada. Quando se chega ao topo - eu previamente arrisco - se pergunta: "e agora? Descer?". Não falta nada. É por isso que eu só quero enquanto não posso ter.
E daí surge a fumaça da minha pálida frieza.
E assim revelo o gélido segredo da minha delicadeza e incalculável leveza.
A única certeza que eu tenho é a de que não tenho certeza.
Não quero ter que repetir.
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